E assim entre as peças de xadrez, os gatinhos e as lições da laranja e do espelho, a nova Alice assumiu a sua forma agora familiar. O problema do xadrez é corretamente desenvolvido na história, mas a trama absurda e os movimentos das peças são habilmente misturados e fundidos, que até aqueles que não conhecem xadrez raramente são perturbados por qualquer sensação de estarem sendo excluídos de alguma coisa da diversão.
Uma coisa era certa: o gatinho branco nada tivera a ver com aquilo; a culpa era exclusivamente do gatinho preto.
Não pense a respeito, trate apenas de correr, pensou ele. Corra! As pernas se moviam sobre a terra ligeiramente amolecida, os pés tropeçavam em torrões de terra e pedras invisíveis na escuridão, os pulmões ardiam a cada respiração, o estômago se revirava em uma náusea dolorida corra! Pense em alguma outra coisa, concentre-se em seu objetivo, esforce-se em atingir o alvo. As frases ridículas quase que o fizeram rir. A respiração ofegante até mesmo mudou de ritmo, quando ele sorriu ligeiramente, por entre os arquejos. Aquilo era uma piada. Pense em seu objetivo enquanto está correndo desesperadamente, porque em algum lugar atrás de você, provavelmente bem perto, há pessoas cujo único objetivo é mata-lo. E elas estão armadas. E não estão a pé. E não estão cansadas. E não estão perdidas. Corra! É engraçado como os braços podem ficar cansados quando se corre, pensou ele, ao chegar ao topo de pequena colina, cambaleando para baixo, do outro lado. Eles balançam ao lado do corpo, não tendo praticamente o que fazer e, apesar disso, ficam extremamente cansados, muito pesados. E o pescoço! Porque tem de ficar tão cansado? Não pense nisso, não fique cansado. Corra! A bola de luz, muito brilhante, apareceu lá na frente. Ele estava suficientemente perto para distinguir objetos ao clarão do refletor. Sacudiu a cabeça para olhar o céu muito limpo. As estrelas brilhavam, mas a lua ainda não aparecera. Talvez já tivesse, pensou ele. Talvez a lua já tivesse atravessado o céu e desaparecido. Talvez esteja escondida atrás de uma nuvem. Talvez fique onde está deixando assim que a escuridão continue a me esconder. Talvez... Talvez eu consiga alcançar a luz. Talvez entre no campo iluminado. E talvez eles não cheguem perto o bastante para me acertar, até que chegue ajuda. Talvez, pensou ele, Talvez... Corra! Cinquenta metros antes da bola de luz, ele tropeçou em uma cerca abandonada, os pés muito pesados batendo no arame farpado de baixo, que de alguma maneira conseguiria sobreviver aos dois outros arames de cima, resistindo á devastação do tempo, das chuvas e de animais errantes, somente para fazê-lo cair. Ele tropeçou caiu, rolou pelo chão, e seu corpo estremeceu. Levante! Vamos, Levante! Um liquido escorria por seu rosto, Um liquido mais grosso e mais pegajoso que o suor que já lhe cobria o rosto. Mas os talhos não o incomodavam. Ele disse a si mesmo que isto já não importava. E que os machucados também não incomodavam. Lentamente, ele ficou de pé, cambaleando. E continuou a correr pela pradaria. Esqueça o seu corpo dolorido. Corra! Está bastante frio, pensou ele. Terrivelmente frio, mesmo para a primavera. O chão está quase congelado. Se eu não estivesse correndo, precisaria mais do que apenas de uma camisa. Mas se eu não estivesse correndo, pensou, não estaria aqui, precisando de um casaco. Corra! Ele tentou pular um pouco antes de alcançar a beira do circulo de luz. Depois de tudo por que passara, não deveria ser capaz de saltar tão alto quanto saltou. Era surpreendente, pensou ele, quando corpo bateu contra a cerca de correntes. Espantoso... Ele não sentiu as palmas da mão. Naquele momento, não estava sentindo nada além de esperança. Lentamente, ergueu o corpo para cima da cerca, enroscando-se como uma bola. Uma tremenda pressão lhe puxou os braços, quando ficou perpendicular á cerca. Mas sua mente disse aos braços que podiam fazer e eles o fizeram. Durante os exercícios finais do treinamento, descansado, cheio de energia e reagindo apenas aos estímulos da aula, ele escalara á cerca em menos de nove segundos. Fora o recorde em seu grupo de treinamento, no curso de obstáculos. Naquela noite, Levou mais de vinte segundos para conseguir dar o impulso que deveria levar seu braço acima dos três arames farpados esticados, agarrando a grade de ferro lá no alto. Naquela noite, o impulso lento e desajeitado levou seu braço apenas até para o arame farpado de baixo. Mas ele conseguiu agarra-lo, apesar da ponta lhe furar a mão, Apesar do sangue escorregadio. Numa explosão concentrada de energia levantou o corpo pelo alto da cerca, caindo os três metros até o chão, como um saco de roupa suja. O instrutor de treinamento físico o teria feito repetir o exercício diversas vezes, até que estivesse fazendo com perfeição a descida paraquedista. Joelhos dobrados, as pontas dos pês primeiro, rolando em seguida pelo chão! Mas os instrutores estavam agora do outro lado das numéricas cercas, dormindo, seguros. Ele não soube por quanto tempo ficou caído ali. Pensou ter sido quase cinco minutos. Na verdade, foi menos de um minuto, Mas o tempo tinha pouca realidade para ele, naquele momento. Havia apenas dois períodos: correr e depois de correr. E agora era depois de correr. E ele começou a rastejar. Rastejou para centro do circulo de luz intensa. Refletores muito fortes o ofuscavam, para todos os lados que olhava. Cerrando os olhos, ele pode ver quatro armações de metal, em cada um dos pontos cardeais. Arrastou-se na direção de outra saliência de metal, erguendo-se por quase um metro e meio, por cima de uma laje de concreto, a poucos metros do centro do circulo de luz. Levou trinta segundos para conseguir ficar de pê ao lado do tubo de ventilação e outros trinta para poder manter o equilíbrio, depois que se levantou. Lentamente, começou a bater com as mãos ensanguentadas nos lados dos tubos frios de alumínio. A bala atingiu-o no estante em que sua mão abaixava debilmente para a quinta pancada. E atingiu-o em cheio, rasgando o peito, dilacerando a horta e diversas costelas, antes de sair do outro lado e se perder na escuridão. Ele estava morto antes que seu corpo dobrasse por cima do tubo de ventilação e caísse na laje de concreto, muito antes que o estampido do rifle chegasse ao circulo de luz. A meio quilômetro de distância, o atirador baixou o rifle.
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